"A Montanha" foi apresentada pela primeira vez na exposição colectiva "A nossa língua não cura". Esta exposição, que renuiu trabalhos de onze artistas portugueses, esteve patente no Espaço Anenida (Avenida da Liberdade, nº 211, Lisboa) durante todo o mês de Maio de 2009 e foi organizada pela Isabel Ribeiro.
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"A Montanha", 2009. Acrílico sobre tela de algodão, 180 x 130cm
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São bem conhecidas as afinidades entre a arte da pintura e obra cinematográfica de Akira Kurosawa. Mais do que traduzir a forma da pintura para o cinema, o realizador japonês parece conjugar, de uma forma única, o seu antigo gosto pela pintura com os processos de construção narrativa na linguagem do cinema; a sua forma de filmar pode surgir comparada à forma como pintava, por exemplo, Van Gogh, sendo este uma grande influência para a relação de Kurosawa com o cinema e com o mundo. O realizador chegou mesmo a realizar uma curta metragem ("The Crowns", incluinda em "Yume" (Sonhos), 1990) baseada num sonho, no qual entra (literalmente) numa pintura de Van Gogh e conhece pessoalmente o artista, com quem trava um isólito diálogo. O seu filme Kagemusha (1980) está também muito próxima da pintura, pela forma como o realizador altera a cor, acentua o gesto, a forma, sempre com o objectivo de evidenciar estas características, de tornar o resultado mais "expresivo".
Kagemusha está na origem da pintura “A Montanha”, contudo, as principais razões para tal acontecer fogem às relações mais evidentes que o filme pode estabelecer com a linguagem pictórica. Foi no guião do filme, e na personagem central Kagemusha (sósia de Shingen Takeda) em particular, que encontrei uma forte metáfora com a história recente da pintura e com a sua condição de existência das últimas décadas.
Resumindo, durante a guerra civil do Japão (período Sengoku, século XVI) o chefe guerreiro Shingen Takeda (conhecido também por “A Montanha”, devido à sua postura confiante e grandiosa), é gravemente ferido e, às portas da morte, manifesta o seu desejo de ter um sósia capaz de omitir a sua morte durante (pelo menos) três anos, para poder continuar a intimidar os seus inimigos e assim manter a integridade do seu clã. Um antigo ladrão surge no desempenho do papel do chefe guerreiro sem que ninguém se aperceba e, durante esse período, o clã continua intacto vencendo até uma importante e decisiva batalha em 1574.

Akira Korosawa, Kagemusha (1980)
“A Montanha”, é uma pintura que tenta reproduzir as costas do casaco de Shingen, que passa a ser usado (com sucesso) pelo seu sósia. Deste modo, a presença desta peça pretende reflectir a condição da própria pintura no presente, a forma como se relaciona com a sua própria sentença de morte (principalmente no contexto dos anos sententa) e com as estratégias de sobrevivência das décadas seguintes. A pintura pode continuar a existir na condição de um kagemusha mas, como é referido por um dos guerreiros Takeda, “um sósia só faz sentido quando existe um original”, daí poder existir para sempre um sentido histórico de autonomia para uma pintura permanecer confiante, “imóvel como uma montanha”.
Kagemusha está na origem da pintura “A Montanha”, contudo, as principais razões para tal acontecer fogem às relações mais evidentes que o filme pode estabelecer com a linguagem pictórica. Foi no guião do filme, e na personagem central Kagemusha (sósia de Shingen Takeda) em particular, que encontrei uma forte metáfora com a história recente da pintura e com a sua condição de existência das últimas décadas.
Resumindo, durante a guerra civil do Japão (período Sengoku, século XVI) o chefe guerreiro Shingen Takeda (conhecido também por “A Montanha”, devido à sua postura confiante e grandiosa), é gravemente ferido e, às portas da morte, manifesta o seu desejo de ter um sósia capaz de omitir a sua morte durante (pelo menos) três anos, para poder continuar a intimidar os seus inimigos e assim manter a integridade do seu clã. Um antigo ladrão surge no desempenho do papel do chefe guerreiro sem que ninguém se aperceba e, durante esse período, o clã continua intacto vencendo até uma importante e decisiva batalha em 1574.

Akira Korosawa, Kagemusha (1980)
“A Montanha”, é uma pintura que tenta reproduzir as costas do casaco de Shingen, que passa a ser usado (com sucesso) pelo seu sósia. Deste modo, a presença desta peça pretende reflectir a condição da própria pintura no presente, a forma como se relaciona com a sua própria sentença de morte (principalmente no contexto dos anos sententa) e com as estratégias de sobrevivência das décadas seguintes. A pintura pode continuar a existir na condição de um kagemusha mas, como é referido por um dos guerreiros Takeda, “um sósia só faz sentido quando existe um original”, daí poder existir para sempre um sentido histórico de autonomia para uma pintura permanecer confiante, “imóvel como uma montanha”.